Câncer de mama: depois de finalmente ter conseguido ser mãe, outra batalha apareceu para vencer

Veja o relato da nutricionista Ana Paula, de 49 anos, sobre como foi a identificação de um nódulo e todos os choques que passou até vencer a luta contra o câncer de mama.

Como recebeu a notícia de que estava com câncer?

Eu tinha acabado de passar por um período muito complicado. Engravidei e perdi, na primeira vez. Na segunda, engravidei de gêmeos e perdi um dos bebês no terceiro mês. Segui com a gravidez e meu filho nasceu saudável. Quando ele estava com um ano e nove meses, eu estava tomando banho e realizando o autoexame, quando identifiquei um caroço. Fui à médica do meu trabalho e ela disse que era quase impossível ser câncer, porque eu não tinha histórico familiar e eu fazia exames anualmente e no último deles, alguns meses antes, não tinha aparecido nada. Ainda assim, ela pediu um ultrassom da mama. Fiz e apareceram dois caroços, um em cada mama. Ela pediu, então, a mamografia, que confirmou o primeiro exame. Para ter certeza de que era um tumor, ela pediu uma biópsia e o resultado foi positivo para uma das mamas. Fui ao meu ginecologista, contei tudo o que aconteceu, apresentei os exames e ele confirmou, era câncer. Ele disse que eu tinha duas opções: tratar ou não acompanhar o crescimento do meu filho. É claro que eu sabia que precisava tratar. O ginecologista me indicou um mastologista, que me apresentou um oncologista do Grupo COI. Precisei fazer a mastectomia de uma das mamas e um mês depois iniciei a quimioterapia.

E como sua família encarou a notícia?

Meu marido me apoiou, disse que ficaria ao meu lado o tempo todo, que ia me acompanhar nas sessões. A minha mãe ficava muito com meu filho, mas não se sentia bem de ir ao médico comigo. Mas me deu apoio, me ajudou, cuidava de mim. Meu marido ficou do meu lado até a segunda reconstrução mamária, quando, após 15 dias da operação, ele me disse que estava saindo de casa. Meu filho estava com três anos e meio, eu estava de licença médica e em depressão porque estava me sentindo muito mal. Achava que nada ia dar certo. Neste momento, tirei forças nem sei de onde, mas tive que levantar, sacudir a poeira e voltar a trabalhar e cuidar do meu filho.

Qual foi o momento mais difícil do tratamento?

Tive dois momentos muito difíceis: a mastectomia foi o primeiro. Até o momento em que entrei na sala de cirurgia, o mastologista disse que tentaria não retirar toda a mama. Quando acordei, vi que a mama precisou ser retirada por inteiro e desabei. Eu tinha esperança, achava que seria possível. Isso mexeu muito comigo. O segundo momento muito difícil foi a minha última sessão de quimioterapia. Já era muito difícil encontrar veia, eu sofria muito com essa procura e não queria ir. Meu marido e minha mãe me obrigaram. Foi tão difícil que eles chegaram e pensar em colocar um cateter, mas no fim não foi preciso. Imagine, só. Na última sessão…

Como encarou a questão da vaidade?

A queda do cabelo também me incomodou muito. Os médicos não têm a preocupação com este tipo de coisa, para eles são detalhes. Eu fui à consulta e depois da primeira conversa eu perguntei como eram os sintomas da quimio. A enfermeira disse que logo na primeira sessão cai o cabelo e sugeriu que eu cortasse bem curtinho para não ter muito choque. Cortei chanel e mesmo assim ainda foi um baque. Eu procurava não pentear muito. Mas um dia, antes de dormir, ele simplesmente começou a cair muito, eu me olhei no espelho com as marcas da cirurgia, o cabelo curto, caindo, fiquei abalada. Então resolvi que ia usar peruca, não tive coragem de ficar sem. Quando o tratamento havia terminado, depois da segunda construção da mama, era verão e eu resolvi que precisava tocar a bola para frente. Abandonei a peruca, dei um corte no meu cabelo, pintei, comprei roupas novas, fiz um curso de automaquiagem e segui em frente.

O que você pode dizer a outras mulheres que estão enfrentando a mesma doença?

O conselho que eu daria é: não desista. Pode ser muito difícil, tente tudo, desde a medicina alternativa até o mais pesado dos tratamentos. O que der, porque não é só por filho, por marido, é por você, para você se dar outra chance. Deus te deu uma chance porque alguma coisa tem lá na frente. Ele quer que você veja a vida por outro ângulo.

Qual a sensação de poder dizer “eu venci”?

No meu trabalho, algumas pessoas conhecem a minha história e minhas amigas também. Essas pessoas me dizem sempre: “você é muito forte, você é uma guerreira”. Eu não me vejo assim. Até gostaria de ter essa visão, mas digo que eu não tive escolha. Eu não pude escolher entre lutar ou não lutar. Eu só tinha um caminho à minha frente, que era lutar e vencer.

 

Fonte: https://vejario.abril.com.br/cidades/historias-de-mulheres-que-venceram-o-cancer-de-mama/